Carregando

Álbuns que mudaram o rap nacional | Parte 1

Álbuns que mudaram o rap nacional | Parte 1

O rap completou recentemente 45 anos de existência no mundo e é o gênero musical mais consumido atualmente, se consolidando como uma indústria pra lá de lucrativa! Nos Estados Unidos, por exemplo, o estilo ultrapassou o rock e se tornou o mais ouvido entre os norte-americanos: cerca de 25% do consumo de todas as músicas reproduzidas no país, de acordo com o relatório divulgado pelo Nielsen, em 2017.
 

O estilo chegou ao Brasil na década de 80. Vindo das periferias, foi bastante marginalizado em relação aos demais gêneros musicais. Hoje, tem seu valor reconhecido de forma bem mais ampla e, apesar de recente, a história desse ritmo no cenário da música no Brasil é repleta de discos que impactaram tudo o que veio pela frente.
 

Por isso, vamos lembrar aqui alguns álbuns que mudaram a cena do rap nacional e que não podem faltar na playlist de quem ama esse universo! Neste post, vamos falar de Sobrevivendo no Inferno, dos Racionais MC’s. Confira!


 

O álbum
 

Sobrevivendo no Inferno, de 1997, é o quarto álbum dos Racionais MC’s. Mesmo sendo lançado pela gravadora independente dos músicos, o disco alcançou a marca de 1 milhão e meio de cópias vendidas, entre o comércio formal e informal. Para muitos, é considerado o melhor e mais impactante álbum da história do rap nacional.
 

O disco marca a projeção do grupo, que consegue transportar o som da periferia aos grandes centros do país. É naquele momento que o grupo se autodenomina “a voz da favela”.
 

A música negra se faz presente nos arranjos, nas rimas, nos samples de Tim Maia, Cassiano e Jorge Ben Jor e nas referências musicais do soul e da funk music. É o momento que Brown se mostra um cronista nato, KL Jay um fenômeno nos beats e Ice Blue e Edi Rock como rappers acima da média.
 

O disco, inclusive, foi lançado em livro, que conta toda a história por trás do trabalho.


 

Contexto violento
 

O álbum fala bastante sobre escolhas. Ou a falta delas, principalmente para a população periférica, que têm chances e caminhos reduzidos, vivenciando a violência e o descaso diariamente. “Mas que merda, meu oitão tá até a boca/ Que vida louca/ Por que é que tem que ser assim?”, diz o verso da faixa “Fórmula Mágica da Paz”.
 

O som ainda apresenta um desejo de mudança e a tentativa de fugir, pelo menos por um instante, daquela realidade.

 

[...]

[Ice Blue]

cê viu ontem? os tiro ouvi de monte!

Então, diz que tem uma pá de

Sangue no campão.

[Brown]

Ih, mano toda mão

É sempre a mesma ideia junto

Treta, tiro, sangue, aí, muda de assunto

Traz a fita pra eu ouvir

Porque eu tô sem, principalmente aquela lá do Jorge Ben [...]


 

Caos e religião
 

O tema religião não foge do contexto das canções, como em “Gênesis” e “Capítulo 4, Versículo 3”. Até mesmo a capa apresenta uma cruz.
 

Brown, ao mesmo tempo que “clama pela ajuda divina”, contesta tudo isso dentro do contexto periférico. Mais uma vez, relaciona o cotidiano violento com a religiosidade.
 

Veja o trecho da “Capítulo 4, Versículo 3”:

 

[...]

Minha palavra alivia sua dor

Ilumina minha alma, louvado seja o meu senhor

Que não deixa o mano aqui desandar

E nem sentar o dedo em nenhum pilantra

Mas que nenhum filha da puta ignore a minha lei

Racionais, capítulo 4 versículo 3 [...]

 

Gênesis”, de apenas 21 segundos, mostra a angústia de um morador da periferia, que deseja fazer o certo, mas se encontra num contexto de quase “morte súbita”. Ele se vê dividido, aflito e atormentado em pegar no gatilho ou em sua “bíblia velha”. Ele só quer sobreviver.

 





 



Clássicos



A competência na construção de versos e estrofes e a habilidade nas rimas de Brown é provada em “Tô Ouvindo Alguém Me Chamar”. A música, de 11 minutos e 13 segundos, conta a história de dois personagens: Guina e um morador da periferia.

 

Guina quer levar o amigo para o mundo do crime. Apesar de receoso, o morador aceita o convite. No fim, subentende-se que ele acaba morto a mando do próprio Guina. O som foi um dos grandes sucessos do álbum e tocou em muitas rádios da cidade de São Paulo, até mesmo por aquelas que nunca tinham tocado uma única música de rap até então.
 

Edi Rock comanda a faixa dez, “O Mágico de Oz”. A letra é sobre a estória de uma criança moradora de rua, sua relação com o crack e com a sobrevivência. A música também tem mais de dez minutos e causou uma grande impacto após o lançamento do disco, uma vez que, na época, os índices de crianças que viviam nas ruas eram altíssimos.
 


O disco ainda conta com seu principal sucesso: “Diário de um Detento”. Ao contrário do que muitos pensam, a canção foi composta por Mano Brown e pelo ex-detento do Carandiru Josemir Prado (Jocenir), inspirada em seu diário. Por isso, não, Brown não estava (nem nunca foi) preso quando compôs o som!

 

O massacre acontecido no Casa de Detenção do Carandiru, em 1992, foi a inspiração da música, que ganhou dois prêmios no Video Music Brasil, da MTV, em 1998. Um verdadeira marco para o grupo e para a emissora.
 

A ocasião marcou a primeira vez que o grupo apareceu na TV em uma apresentação ao vivo. Foram meses de negociação para que o quarteto pudesse comparecer ao evento. Após muita resistência, principalmente de Brown, os músicos acabaram aceitando. Relembre:
 

Ouça o álbum inteiro:

 


E aí, o que achou? Comenta aí!

Comentários

Deixe seu Comentário

Categorias